Segurança Privada, Violencia/Violence/Violência

Difundindo o monopólio da violência: Empresas privadas militares e de segurança e poder estatal coercitivo

Escrito por: Carlos Díaz, Ekaterina Zepnova, Felip Daza, Giulia Campisi and Nora Miralles. Observatorio de Derechos Humanos y Empresas del Mediterráneo (ODHE)[1] and Shock Monitor research team

O crescente alarme sobre a situação de segurança em Cabo Delgado (Moçambique), onde mais de meio milhão de pessoas foram deslocadas pela violência dos confrontos entre grupos armados islâmicos e forças estatais, trouxe de volta as luzes da ribalta sobre o papel das Empresas Privadas de Segurança Militar (PMSC). Este conflito ilustra bem a natureza da aliança entre estados, PMSC e empresas envolvidas em indústrias extrativas, desde que o Grupo Wagner, um dos maiores PMSCs russos, e a empresa sul-africana Dick Advisory Group foram implantados na área, sendo seu principal papel apoiar o exército na luta contra grupos insurgentes que estão ameaçando os depósitos de gás explorados pela transnacional francesa Total.

Este não é um caso isolado. A privatização progressiva das funções de segurança do Estado sob o neoliberalismo permitiu ao PMSC expandir-se drasticamente nas últimas décadas, tornando-se prestadores de serviços ligados ao poder coercitivo, o poder padrão, legítimo e legal que os Estados exercem através de seus exércitos e forças de segurança. Assim, nas últimas duas décadas, a segurança tornou-se tanto uma legitimação de qualquer ação estatal quanto uma outra fonte de maximização do lucro.

Embora os governos muitas vezes se refiram a eles como empresas privadas de segurança, os PMSCs também incluem empresas que diferem destas em virtude de suas funções militares e estatais coercitivas, sua presença internacional e sua vasta capacidade operacional, incluindo equipamento militar como qualquer exército moderno teria à sua disposição. Esta capacidade, juntamente com sua capacidade altamente versátil de ser implantada em qualquer parte do mundo, tornou os PMSCs essenciais para muitos governos. Eles são utilizados tanto para missões internacionais em zonas de conflito, onde apóiam exércitos convencionais ou se opõem a insurgentes (controle e proteção de indústrias extrativas ou contra o terrorismo), como para fornecer serviços de segurança doméstica ao lado ou ao invés das próprias forças de segurança do estado (controle de fronteiras, proteção de infra-estrutura crítica, gestão de segurança prisional, etc.).

A terceirização da política externa através de PMSCs

No nível da política externa, análises comparativas do envolvimento do pessoal do PMSC e das tropas do Exército americano nos conflitos mais privatizados da história recente, Afeganistão e Iraque, por exemplo, mostram que em 2013, para cada soldado americano havia três contratados de segurança privada. Não houve redução no uso de PMSCs em conflitos armados desde então. Alguns governos tentaram justificar esta política alegando que é uma estratégia para reduzir os gastos militares, uma vez que não é necessário manter estes empreiteiros militares em “tempo de paz”. O uso de PMSCs permite aos governos intervir em conflitos armados, evitando o escrutínio público e como forma de escapar da regulamentação internacional, onde os novos tipos de mercenários têm amplo espaço de manobra.

As guerras recentes na Líbia e na Síria têm sido terreno fértil para o uso de PMSCs em conflitos internacionais, em que países terceiros participam contratando esses atores armados não estatais. Em fevereiro de 2015, centenas de funcionários do Grupo Wagner morreram em um ataque aéreo das tropas americanas na região de Deir Ezzor, na Síria. Além disso, na guerra civil altamente fragmentada que atingiu a Líbia de 2014 até tempos muito recentes, as forças armadas do governo oficial tinham entre 3.000 e 6.000 mercenários sírios, treinados pelo PMSC turco Sadat, enquanto as milícias do ex-coronel líbio Khalifa Haftar tiveram o apoio de cerca de 200 combatentes estrangeiros financiados pelos Emirados Árabes Unidos (EAU) e equipados com armas russas. De fato, o Grupo Wagner novamente.

Como não existe um sistema vinculante para responsabilizar essas empresas, nem qualquer transparência quanto aos serviços que elas prestam, devido ao seu status privado e à natureza confidencial de seus contratos, é extremamente difícil responsabilizá-las pelos abusos e violações dos direitos humanos cometidos por seus funcionários. A regulamentação se baseia, portanto, em normas internacionais não vinculativas, como o Documento Montreaux 2008, que a Rússia nem mesmo assinou. O exemplo mais recente desta potencial impunidade é o perdão de Trump aos mercenários que trabalhavam para a Blackwater (agora chamada Academi e parte do Grupo Constellis) que estavam cumprindo uma pena de prisão pelo massacre civil na Praça Nisour, no Iraque, em 2007.

Policiamento privado no interior dos estados

Respondendo ao coro político de advertência de “novas ameaças” à estabilidade nacional, tais como terrorismo, ciberataques ou migração, os PMSCs também começaram a se concentrar em outros setores emergentes na arena da segurança nacional, relacionados com a proteção da infra-estrutura crítica, gestão dos fluxos migratórios, as instituições de punição, tais como prisões e centros de detenção de migrantes, cibersegurança e inteligência nacional, e outras tarefas quase policiais. Por exemplo, no contexto de protestos públicos generalizados na França, empresas como o Groupe DCI forneceram treinamento e serviços de consultoria para as forças de segurança do governo.

Os PMSCs também foram fundamentais na “Guerra contra a Droga” internacional financiada pelos EUA, como o Plano Colômbia e a Iniciativa Mérida 2006 no México. Eles também se engajaram e continuam a desempenhar tarefas como treinamento, manutenção e fornecimento de apoio logístico e equipamentos para os atores estatais que são direta e indiretamente responsáveis pelas violações dos direitos humanos.

Outra manifestação da penetração dessas empresas na segurança do Estado é seu crescente papel na manutenção da ordem pública, desempenhando funções que poderiam ser adequadamente as das forças de segurança pública. Na Cidade do Cabo (África do Sul), onde o exercício da segurança pública freqüentemente continua a refletir as desigualdades da era do Apartheid, empresas privadas de segurança como as Alternativas Profissionais de Proteção não apenas patrulham bairros brancos ricos, mas também estão realizando operações para expulsar pessoas de espaços públicos. Paradoxalmente, isto desafia o monopólio do Estado sobre a coerção e a força, mas com a conivência aberta do Estado.

Outra das tendências que melhor ilustra a terceirização da segurança é a privatização das prisões, das instalações de internação e dos centros de detenção de migrantes. Este é o aspecto do envolvimento dos PMSCs na segurança pública que desperta a maior oposição e alarme entre os defensores dos direitos humanos e na sociedade civil por causa de seu impacto sobre os direitos. No caso dos EUA, como por exemplo, os três PMSCs que dominam o mercado – CoreCivic, Geo Group e Management and Training Corporation – têm um longo histórico de reclamações sobre tratamento degradante, trabalho forçado, abuso, violência e agressão sexual em prisões, estabelecimentos penitenciários e centros de detenção que detêm crianças e migrantes. A pandemia tornou esta situação ainda pior, deixando a saúde e a segurança dos migrantes à mercê de PMSCs como a MVM Inc, que tem usado hotéis para deter e confinar crianças desacompanhadas e bebês tão jovens quanto um ano antes de deportá-los, como revelou o The New York Times em agosto de 2020. Da mesma forma, um dos principais contratantes nas prisões e centros de imigração do Reino Unido, o G4S, tem estado envolvido em múltiplos escândalos e acusado de repetidas violações dos direitos humanos no Reino Unido e em outros lugares, por prestar serviços à base norte-americana em Guantánamo, onde ocorreu tortura, ou por vender equipamentos aos postos de controle israelenses nos Territórios Ocupados Palestinos.

Da inteligência tradicional aos cyber-mercenários

Autor de Spies for Hire: The Secret World of Intelligence Outsourcing, Tim Shorrock, afirma que 70% do orçamento de inteligência dos EUA em 2007 foi terceirizado para empresas de segurança. Um ano depois, uma investigação do The Washington Post descobriu que 1.931 empresas privadas estavam colaborando nas tarefas de segurança nacional, contra-terrorismo e inteligência a partir de 10.000 locais nos EUA.

A contratação de agências de inteligência governamentais de corporações que produzem tecnologias de vigilância não é novidade. Entretanto, estes serviços evoluíram com o uso de novas tecnologias e, agora, os contratantes de segurança privada fornecem e mantêm tecnologia de software e sistemas de hardware; coletam dados relacionados à segurança nacional interceptando chamadas, hackeando telefones celulares e sistemas de TI; analisam e sistematizam dados relacionados à segurança nacional; produzem relatórios de avaliação de risco para o alto comando militar; operam drones de reconhecimento durante protestos ou em conflitos armados além das fronteiras; e conduzem operações secretas que envolvem atividades irregulares ou ilegais, tais como infiltração em movimentos sociais ou interrogatório de suspeitos.

A ciberespionagem tornou-se assim um dos principais serviços dos PMSCs, envolvendo a contratação de um grande número de hackers – ou o que o Grupo de Trabalho das Nações Unidas sobre o uso de mercenários chama de cyber-mercenários, que dificulta deliberadamente a supervisão democrática dessas operações, como o pesquisador Armin Krishnan apontou. Além disso, estes serviços incluem trabalhos extremamente sensíveis e controversos, já que as empresas são utilizadas como procuradores para escapar do escrutínio público e intrometer-se nos assuntos domésticos de outros países.

Como exemplo, a agência de inteligência militar russa (GRU) usou os serviços da Agência de Pesquisa na Internet, também conhecida como Troll Factory, ligada ao oligarca Yevgeny V. Prigozhin, para interferir nas eleições presidenciais de 2016 nos EUA, invadindo contas de e-mail e redes de computadores do Partido Democrata e espalhando desinformação nas mídias sociais para favorecer a campanha presidencial de Donald Trump.

Ao mesmo tempo, a cooperação no campo da inteligência implica que os contratantes de segurança privada tenham acesso a informações sensíveis relacionadas à segurança nacional e aos bancos de dados das agências governamentais que contêm informações pessoais de cidadãos ou ativistas. Isto claramente tem um impacto nos direitos civis e políticos, em casos como as atividades sombrias de inteligência do Tiger Swan PMSC, que coletou dados infiltrando-se no movimento indígena Standing Rock e ambiental no Dakota do Norte, ou onde há conluio entre as forças de segurança do estado, contratantes de segurança e assassinos contratados, como é o caso do assassinato de Berta Cáceres em Honduras e muitos mais defensores dos direitos humanos e defensores do meio ambiente na Colômbia e no Brasil.

Subjacente a estas relações comerciais está um alinhamento com a agenda econômica, social e moral do neoliberalismo em seu estado mais avançado, que vê a esfera pública apenas como uma oportunidade econômica a ser explorada, sem nenhuma preocupação com suas conseqüências sociais. Como os governos terceirizam papéis de segurança pública que são excessivamente sensíveis aos direitos humanos, a proteção é deslocada para segundo plano, pois é dada prioridade aos lucros do setor privado e à ausência do escrutínio público.

Este artigo é uma versão editada do ensaio original publicado em State of Power 2021 report: Coercive World of Transnational Institute


[1] Observatory on Human Rights and Business in the Mediterranean Region. http://www.odhe.cat/es/

Este artigo é uma tradução automática de sua versão em inglês

1 comentario en “Difundindo o monopólio da violência: Empresas privadas militares e de segurança e poder estatal coercitivo”

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